A infância e o desamparo frente à confusão de língua
- Imersão Espiritual

- 16 de fev. de 2024
- 3 min de leitura
Quando a criança era criança andava balançando os braços. Desejava que o riacho fosse rio, que o rio fosse torrente... E essa poça, o mar.
Quando a criança era criança, Não sabia que era criança. Tudo era cheio de vida, e a vida era uma só.
Quando a criança era criança Não tinha opinião... Não tinha hábitos, sentava-se de pernas cruzadas, Saía correndo... Tinha um redemoinho no cabelo E não fazia pose para fotos [...]
Peter Handke, Canção da Infância, 1987

Bem-vindo ao post no seu blog. Use este espaço para conectar-se com seus leitores e com seus clientes potenciais de uma forma atualizada e interessante. Pense nisso como uma conversa na qual você pode compartilhar atualizações sobre o negócio, tendências, notícias e muito mais.
A poesia de Peter Handke (1987) "Canção da infância" ilustra a linguagem da ternura, a espontaneidade e a esperança que são próprias da infância, quando ela pode ser vivida como tal, oferecendo espaço para a criança imaginar, criar, construir, dar asas à sua imaginação e à sua onipotência, o que permite o desenvolvimento da capacidade de desejar; uma conquista possível, decorrente de um processo natural de amadurecimento que, no entanto, pode sofrer sérios desvios, interrupções ou impedimentos.
Ferenczi foi um dos primeiros psicanalistas a se deparar com casos clínicos graves, ou seja, a lidar com pacientes que sofreram esses impedimentos em seu desenvolvimento psíquico por consequência da ação do trauma decorrente de vivências que ultrapassaram em muito a capacidade de defesa. Nesse contexto, cabe assinalar a importância do ambiente em oferecer a proteção e o cuidado necessários.
Ao considerar que a linguagem da criança é a linguagem da ternura, Ferenczi assinala, sobretudo, a importância da qualidade do vínculo com os objetos para o amadurecimento emocional da criança. Cabe lembrar que esse aspecto foi amplamente enfatizado por diferentes teóricos das relações objetais precoces que foram direta ou indiretamente influenciados por suas ideias, dentre os quais se destacam Winnicott e Balint.
A questão do vínculo afetivo e da linguagem da ternura, proposta por Ferenczi, foi largamente desenvolvida por Balint (1936/1965, 1968/1993), por exemplo quando ele enfatiza a importância, no contexto do amor primário, da dependência amorosa entre o bebê e sua mãe para a constituição e o desenvolvimento do psiquismo primário, assim como as graves consequências provenientes das falhas ambientais no atendimento destas necessidades iniciais. Para Balint, as atividades libidinais mais precoces não se caracterizavam antes de tudo pela busca de satisfação pulsional, como enfatizavam Freud e Melanie Klein, pois eram "marcadas de modo prioritário por um investimento de ternura na figura materna" (Peixoto Júnior, 2013: 99).
Além disso, é importante assinalar também que o fato de Ferenczi mencionar a ingenuidade e a inocência como sinônimos de ternura, como lembra Pinheiro (1995), não significa que não haja sexualidade neste contexto, mas sim que a ternura é anterior à sexualidade genital. Há, portanto, uma ausência de simetria entre a sexualidade da criança e a sexualidade do adulto, tema nem sempre reconhecido por muitos psicanalistas, mas evidente na clínica de Ferenczi, que considerou urgente trazê-lo à discussão.
O trauma ou comoção psíquica é resultante, para o psicanalista húngaro, da confusão que a linguagem da paixão dos adultos pode provocar na subjetividade da criança, ainda marcadamente caracterizada pela linguagem da ternura. O trauma pressupõe, portanto, a intervenção de um fator exógeno que acarrete uma modificação no psiquismo descrita de diversas formas, em 1933, no artigo sobre a "Confusão de língua entre os adultos e a criança". Nesse trabalho, Ferenczi descreve amplamente o tema do desencontro entre a sexualidade da criança, pré-genital, e a sexualidade genital do adulto, explicitando as diferentes modalidades de "confusão de língua" que nele podem ocorrer. Em todas essas descrições, a falha do ambiente provoca o trauma. Dentre estas falhas, Ferenczi menciona as seduções normalmente incestuosas de um adulto ou mesmo o abuso sexual. Esta experiência de violência sexual, que constitui o modelo do trauma desestruturante na teorização de Ferenczi (1933/1992), refere-se ao primeiro tempo do trauma. O desmentido por parte de outro adulto – em quem a criança confia e a quem recorre em busca de amparo e sentido para essa experiência – corresponde ao segundo tempo. O desmentido vem conferir a essa experiência traumática um caráter intensamente desestruturante e patológico, uma vez que a criança busca se organizar psiquicamente através dos sentidos que são dados pelo outro, o adulto, o qual supostamente lhe ofereceria as condições necessárias para estabelecer uma relação mediada entre ela e seu mundo.








Comentários